Sunday, November 8, 2009

O Verdadeiro Olhar: onde está a diversidade?


Tornei-me assinante da publicação semanal "O Verdadeiro Olhar", que se debruça sobre temas relacionados com os concelhos de Lousada, Paços de Ferreira, Paredes e Penafiel. Mentiria se afirmasse estar totalmente desiludido com o investimento. Não é assim.

O jornal é, na generalidade, bem escrito (uma obra-prima jornalística se o comparássemos com o estilo, a estratégia e os conteúdos do conterrâneo "O Progresso de Paredes"), abarca um bom leque de temas de inquestionável interesse público, tem um grafismo apelativo, uma paginação bem conseguida e até na presença on-line se destaca pelos melhores motivos. E há ainda espaço, no interior do jornal, para uma secção humorística, que - melhor ou pior conseguida - sempre dá um colorido (ou um cinzento) à realidade quotidiana da região.

É, por essas e outras razões, uma publicação que valoriza a comunidade em que se insere e isso merece ser digno de respeito.

Mas (e há sempre um mas) - como sempre diz o povo - não há rosas sem espinhos. E o maior espinho d'O Verdadeiro Olhar tem o nome de uma secção: opinião. São quatro páginas - o que estatisticamente até seria notável - que apresentam um clamoroso tom alaranjado e um excessivo enquadramento conservador.

Concretizo. Tomemos como exemplo a 124ª edição, datada de 30 de Outubro: José Luís Costa, Paços de Ferreira, PSD; José Henriques Soares, Paredes, PSD; Carlos Nunes, Lousada, PSD e Nélson Correia, Penafiel, PS (mas atenção, um texto que nos fala da "divisão interna" da concelhia socialista). Somatório: 3 PSD, 1 (ou meio?) PS e zero para todos os restantes partidos, credos, posições e visões independentes nascidas no seio da sociedade civil.

Mas há mais: Maria João Fonseca, ex-Deputada da Assembleia da República (eleita pelo PSD, pois claro!) escreve-nos sobre as polémicas afirmações de Saramago e termina o texto com esta obra-prima: «Se escreve bem? Não tenho conhecimentos suficientes para avaliar a qualidade da escrita de um escritor que coloca a pontuação onde e como lhe apetece, construindo frases que colidem com as regras gramaticais que nos foram ensinadas nos bancos da escola». Ora, meus senhores, este um comentário absolutamente inqualificável.

Há ainda o Pe. Feliciano Garcês - é padre: faz o seu trabalho. E, por fim, o delírio da semana vem em editoral, e assinado pelo próprio director do jornal, Francisco Coelho da Rocha, que decidiu partilhar as suas inquietações sobre a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, ainda por cima com recurso abusivo e descontextualizado a uma citação de Eça de Queiroz. Ele - Francisco, não Eça! - diz-nos então o seguinte:

«Só não consigo perceber porque é que os mesmos que reclamam igualdade não a praticam»
. Vai concretizar? Vai sim: «Já se questionou sobre a dificuldade que um criador de moda tem em se afirmar caso não seja gay? [Como??] Já percebeu o quanto é difícil crescer no mundo da arte sem se submeter ao lóbi gay? [Ai sim? Então porquê?] Se a comunidade gay quer falar de igualdade e de direitos, tem de abrir o debate aos direitos dos heterossexuais. Dos nossos direitos. Ou eu também tenho que ser prejudicado por assumir publicamente que gosto de uma mulher?» [Ora, o Sr. Francisco ainda me há-de explicar em que o prejudica o facto de outras pessoas adquirirem o direito ao casamento perante a lei...].

Provocações à parte, o jornal, os leitores do mesmo (que lhe depositam confiança através do valor da assinatura) só teriam a ganhar com um leque de opiniões mais heterogéneo. Mais: exigia-se que assim fosse, para bem da liberdade de opinião e dos valores democráticos. Todos temos consciência do valor da nossa opinião individual, mas fata-nos muitas vezes humildade para perceber que, de modo algum, ela deve servir para silenciar as que dela divergem. Sobretudo num jornal que se promove como livre e independente.


Página web d'O Verdadeiro Olhar